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Igreja missional e igreja missionária: qual a diferença

Michael W. Goheen é uma das principais vozes sobre igreja missional atualmente. Ele é o autor do livro “A Igreja Missional na Bíblia” (Editora Vida Nova) e um dos preletores do 8º Congresso Brasileiro de Missões (CBM), que acontece de 23 a 27 de outubro em Águas de Lindóia (SP).

Nesta breve entrevista concedida a Ultimato, além de explicar a diferença entre “igreja missional” e “igreja missionária”, ele fala também sobre o legado do Protestantismo na Europa. Confira! imag_dest_07_08_17_michael

O que é uma “igreja missional”? Em quais aspectos é diferente de uma “igreja missionária”?

Michael W. Goheen – As palavras “missional” e “missionária” significam coisas diferentes para pessoas diferentes. Por exemplo, Lesslie Newbigin rotulou a igreja como uma “igreja missionária”. Muitos de seus seguidores estão dizendo a mesma coisa, mas usando uma nova palavra – “missional”. A dificuldade em defini-la existe porque ela é muito grande. Assim, farei a seguir uma série de afirmações sobre o que eu diria que é uma igreja missional:

Uma igreja que entende que sua própria identidade e natureza são definidas pela história da Bíblia. Seu papel é ser uma testemunha da salvação cósmica do reino de Deus, que virá com a volta de Cristo. A igreja é uma amostra desse reino que há de vir e entende que sua própria natureza é ser missional, uma vez que aponta para esse mundo que há de vir pelo bem das nações. Uma igreja que entende que foi escolhida pelo bem do mundo. Ela existe para ser uma amostra do que há de vir pelo bem do mundo. Além disso, suas palavras e ações devem apontar para Cristo pelo bem do mundo. Elas existem para que homens e mulheres possam ver e ouvir a salvação forjada por Cristo e tenham a oportunidade de responder que o conhecem.

Uma igreja cuja completa existência é direcionada para o mundo. A igreja é a nova humanidade e, portanto, suas vidas todas estão sendo renovadas. Portanto, são um povo distinto em todos os aspectos de suas vidas – social, político, econômico e outros. Como um povo distinto, apontam para o propósito original de Deus ao criar a vida humana. Apontam para o reino que há de vir quando Deus renovará a vida humana. Olham para fora, opondo-se aos ídolos que estão no cerne de toda cultura humana.

Uma igreja que compreende ser uma testemunha de Cristo em vida, obras e palavras.

Uma igreja que compreende que seu testemunho é em sua vizinhança local, mas entende também que sua missão é até os confins da terra. Portanto, participará no estabelecimento de um testemunho em lugares onde não há ninguém com o objetivo de estabelecer uma igreja com esse propósito.

Uma igreja cuja identidade missionária tem começado a transformar todas as áreas de sua vida interna: louvor, comunhão, liderança, estruturas etc.

Uma igreja que está profundamente envolvida com sua vizinhança e com o mundo, buscando justiça e praticando a misericórdia.

Uma igreja que fala no nome de Cristo e convida outros em comunhão com ele e com seu povo.

Uma igreja que treina todos os seus membros para praticar o evangelho em suas diversas vocações no mundo.

No ano em que celebramos os 500 anos da Reforma Protestante, o que podemos dizer a respeito do cristianismo na Europa, continente que foi o berço da Reforma?

Michael W. Goheen
 – Ao longo do século passado, ocorreu uma mudança dramática na igreja mundial. Até 25 anos atrás, a maioria dos cristãos moravam no mundo ocidental – Europa e América do Norte. Porém, ao longo do século 20, o centro gravitacional mudou em direção ao sul e ao leste para a África, Ásia e América Latina. Atualmente, de 65% a 75% dos cristãos do mundo vivem fora do Ocidente. Mais especificamente, a igreja está com dificuldades na Europa. A igreja na Europa é descrita como “magra, mas viva”. Os problemas na Europa podem ser listados da seguinte forma: 1) há uma queda drástica no número de pessoas frequentando igrejas nos últimos cinquenta anos; cerca de 72% da população considera-se cristã, mas menos de 25% sequer vai à igreja e menos de 10% frequenta a igreja regularmente; 2) a igreja europeia está num estado avançado de sincretismo com a cosmovisão humanista secular, que é talvez um dos contextos culturais mais perigosos para o evangelho em toda a história; 3) a teologia acadêmica e o ensino bíblico se submeteram em muitos aspectos à cosmovisão iluminista racionalista; 4) agora há mais missionários sendo enviados por nações não ocidentais; a presença missionária europeia continua em declínio.

Portanto, 500 anos após a Reforma, a Europa, seu berço, é hoje um dos campos missionários mais necessitados e mais difíceis do mundo. A esperança é que há muitas igrejas de imigrantes não ocidentais na Europa. Por exemplo, uma das igrejas mais fortes em Amsterdã é de imigrantes de Gana.

Todos os cristãos são chamados para ser “sal e luz no mundo”, para “ir e pregar o evangelho a toda criatura”. Porém, há chamados específicos para lugares específicos?

Michael W. Goheen – Toda igreja é chamada para ser uma presença missionária em seu próprio local e até os confins da terra. Em sua própria vizinhança, a igreja deve ser uma testemunha das boas novas do reino em sua vida, em suas obras e em suas palavras. Cada igreja também deve participar no evangelho até os confins da terra. Contudo, é claro que a forma de participação na missão de Deus é diferente de acordo com duas coisas: 1) o contexto específico em que a congregação está; 2) os dons e recursos específicos que a congregação possui. Assim, a missão da igreja em Vancouver, onde moro, é bem diferente da missão da igreja em São Paulo. Vancouver é abastada e pós-cristã. Isso traz à frente questões diferentes. E em Vancouver há diferentes tipos de igrejas com diferentes dons e recursos. Porém, um testemunho unido de Cristo só pode acontecer se a igreja não estiver em competição.

 

Texto originalmente publico pelo site parceiro Ultimato.com

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