A reconciliação – em Cristo – das gerações

6 de janeiro de 2018

Em sete anos vivendo no Uruguai, não foi só o fator “Pepe Mujica” que me chamou a atenção no cenário político e cultural do país. Também me surpreendia que todos os líderes com espaço e influência estavam na casa dos 70 ou 80 anos de idade. Em minhas visitas à África, nunca deixei de notar que os líderes mais velhos sempre eram os mais ouvidos e respeitados. Quando em uma visita à Ásia nos anos 90, era difícil explicar que eu era o líder nacional de uma organização quando sabiam que eu ainda tinha menos de 30 anos de idade. Sim, em diferentes culturas e lugares, é comum encontrar um abismo entre as gerações.
Por um lado, não condeno o valor do apreço e respeito pelas gerações mais velhas. E antes que más línguas me acusem de que apenas o digo porque já estaria do outro lado da curva, me defendo dizendo que sempre busquei ser assim, respeitando e aprendendo da sabedoria calejada dos mais vividos. Aprendi com meu avô, com meu pai, com meus muitos mestres mais velhos e mais experientes com quem tive o privilégio de conviver ao longo da vida.
Por outro lado, há uma tentação e um perigo entre os mais velhos. Se entre os mais novos uma tentação comum é a de imaginarem-se mais sábios e eficazes na resolução dos problemas da vida (“agora sim chegou a nossa vez”, ou “não sei por que nunca resolveram isso antes”), entre os mais vividos está sempre presente a tentação do apego ao poder, de manter em suas mãos a capacidade de definir os rumos, seja de sua vida, de um projeto ou de uma organização. Com isso, vem o perigo de perder a oportunidade do frescor e da relevância que podem vir dos mais jovens.
As crescentes tentações
Parece que as tentações tendem a crescer ao longo da vida, e não a diminuir. Agora que vou chegando a certa idade, soa mais real o alerta que li certa vez sobre as tentações que surgem mais fortes em cada época da vida, salvo engano, creio ter lido isso nos escritos do médico psiquiatra John White, que deixou um legado importante no ministério estudantil em terras latino-americanas. Se o que recordo agora não é fidedigno, peço-lhes a compreensão para essa reconstrução da memória, incluindo um hipotético perdão póstumo a White. Aliás, dizem que muitas vezes preferimos as construções da memória aos fatos da história. Ou que esse seria um vício dos mais velhos. Vejam como já quase me perco nessas divagações.
Voltando ao ponto, e de acordo com esse relato, a principal tentação na adolescência seria o chocolate. Dos vinte aos trinta anos seria o sexo. Dos trinta aos quarenta, o dinheiro. Dos quarenta aos cinquenta, o poder. E depois dos cinquenta, o que nos tentaria? Todas as anteriores, juntas. Além do aspecto tristemente cômico, suspeito que haja algo de sabedoria nessas simplificações reducionistas. Também creio ser possível afirmar que quanto mais a idade avança, menor costuma ser a paciência e a abertura para a novidade, ou para o novo que o jovem propõe. Quando uns poucos o fazem, pode ser porque ainda felizmente mantenham um frescor jovem em sua mente e coração.
Passos de reconciliação
Se por meio de Cristo todas as coisas são reconciliadas e através dele se estabelece a paz (Col. 1.20), fica a pergunta: poderíamos esperar que em Cristo também haja uma reconciliação das gerações, novos e velhos caminhando juntos, em aprendizado e respeito mútuos, construindo a paz nesse caminho? Eu, que me sinto um jovem-velho, ou um velho-jovem, arrisco-me a dar uns pitacos nessa fronteira onde a obra de Cristo pode fazer diferença em nosso meio. Creio que jovens e velhos podem, em Cristo, dar passos de reconciliação:
• Velhos abrindo espaços de liderança para os mais novos, deixando de controlar e aprendendo a ser conduzidos, o que com frequência é um excelente sinal de maturidade;
• Jovens aprendendo a ouvir e a explorar a riqueza das histórias dos mais velhos, seja para aprender, seja para ganhar perspectiva, porque sem história não se vive bem o presente nem se projeta um bom futuro;
• Velhos liberando perdão, deixando-se invadir pela paz que vem quando o rancor e a amargura se vão; claro que sem abrir mão das necessárias reparações que são parte essencial de uma justiça que permanece, mas aprendendo a encontrar a serenidade que vem da reconciliação verdadeira em Cristo;
• Jovens aprendendo que a humildade, o trabalho com afinco e o serviço, feitos como que para o Senhor, por meio de Cristo, consertam e reorientam as ambições desequilibradas; possibilitam encontrar o seu próprio e verdadeiro valor no que são (criação de Deus) e não nas falsas ilusões de êxito inventadas pelo mundo.
Há valor imenso nos velhos. Sim, ao concluir prefiro referir-me a velhos, sem os eufemismos que buscam esconder a velhice como se ela fosse algo de que deveríamos nos envergonhar. Ela não o é. Também há enorme valor nos jovens. Às vezes ainda não descoberto nem reconhecido, inclusive por eles mesmos. O bom é que Cristo nos descobre, nos valoriza, a jovens e velhos, e nos reconcilia. Também nos envia como agentes dessa reconciliação entre as gerações.
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Texto por Ricardo Wesley Morais Borges – É casado com Ruth e pai de Ana Júlia e Carolina. Integra o corpo pastoral da Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo (SP), serve globalmente como secretário adjunto para o engajamento com as Escrituras na IFES (International Fellowship of Evangelical Students) e também apoia a equipe da IFES América Latina.
Texto originalmente publicado no site parceiro Ultimato.com.br.